O artista que escapou aos planos do NOS Alive: Álvaro Covões revela o lado menos conhecido dos bastidores

Álvaro Covões, figura central na organização do festival NOS Alive, abriu as portas aos segredos melhor guardados da sua carreira em diálogo com Conceição Lino. O gestor, cuja família é proprietária do histórico Coliseu dos Recreios de Lisboa há mais de cem anos, fez revelações surpreendentes sobre como funciona realmente a máquina dos grandes eventos em Portugal.
Do Coliseu aos palcos internacionais
Criado no ambiente teatral lisboeta, Covões recorda que seus pais tinham outras aspirações para o seu futuro. "Queriam que eu fosse médico, mas acabei por seguir para a gestão e economia", confessa. A sua rebeldia juvenil marcou o caminho: só informou o pai que estudava Gestão de Empresas quando já estava no segundo ano do curso.
Diferentemente da geração anterior — que classificava seu pai como alguém que desfrutava a vida — Álvaro dedicou-se de forma quase obsessiva ao trabalho. "O meu vício era trabalhar", revela, acrescentando que essa paixão profissional transformava a labuta em diversão.
Os riscos invisíveis do negócio
A realidade financeira dos espectáculos é brutal e implacável, segundo o produtor. Cada evento é uma aposta tudo ou nada, com prazo de validade extremamente curto. "Um espectáculo é como uma empresa com vida muito breve. Quando termina, fechou. Não há hipótese de recuperar financeiramente o investimento", explica. O risco, portanto, é colossal.
Covões descreve o processo de montagem dos cartazes dos festivais como um exercício de três etapas distintas: primeiro, o programa ideal; depois, o que é realmente viável; e finalmente, aquilo que de facto acontece. "Só o público conhece a última versão", revela com um sorriso cúmplice.
O Tom Waits que nunca chegou
Entre as histórias mais curiosas está a de um grande nome que quase pisou os palcos portugueses, mas não conseguiu. Tom Waits estava em digressão por teatros de ópera, e o Teatro São Carlos — que raramente abre as portas a promotores privados — estava precisamente em obras. A oportunidade passou ao lado.
Desmistificando os artistas
Contrariando a mitologia em torno das excentricidades dos músicos, Covões mantém uma relação profissional e distante. "Raramente estou com os artistas", assegura. Exemplifica com Nick Cave, que traz consigo um chef particular: "Temos que preparar uma cozinha para ele poder trabalhar".
Quando se trata de montar equipas, o produtor recusa o conformismo. "Não gosto de yes-men. Não gosto de pessoas que digam sim a tudo. Precisam de pessoas que saibam discordar da minha visão", conclui, revelando uma filosofia de gestão que valoriza o pensamento crítico sobre a adulação fácil.
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